TÃO SIMPLES COMO A MARIA

Ainda não foi assim há tantos anos que existiam muitas casas sem energia elétrica. As famílias deitavam-se cedo e levantavam-se cedo também. Nos campos, os miúdos, ainda pequenos, ajudavam os pais nos trabalhos agrícolas antes de irem para a escola. A vida era dura, mas quem vivia da terra, pelo menos, raramente passava fome.

Até aos anos 80, ainda eram poucas as famílias que, mesmo numa cidade operária como a Covilhã, tinham televisão. O rádio era, para muitos, a grande companhia e o principal meio de informação e distração.

Foi então que, através da Rádio Renascença, surgiu a radionovela “Simplesmente Maria”, transmitida entre 23 de março de 1973 e novembro de 1974. Tornou-se uma das radionovelas de maior impacto na sociedade portuguesa, numa época em que a televisão ainda não fazia parte do quotidiano de muitas famílias.

E havia também o futebol.

Para muitos homens, os relatos dos jogos eram um dos grandes momentos da semana. Nos cafés e nas tabernas, as vozes elevavam-se e as discussões entre os rivais Sporting e Benfica eram muitas vezes acaloradas. Mas, no final, tudo acabava geralmente com mais uma rodada antes de cada um regressar a casa.

Nos anos 70, nós, os miúdos como eu, precisávamos de muito pouco para sermos felizes. Jogávamos à bola, às escondidas, às apanhadas e a tantos outros jogos que hoje parecem esquecidos.

Um simples dia de sol era suficiente para encher a rua de gargalhadas.

As dificuldades dos nossos pais eram muitas, mas a nossa alegria era espontânea. Não invejávamos nada nem ninguém, porque também não havia assim tanto para invejar. Éramos nós, a rua e aquele pequeno mundo que parecia enorme.

Os miúdos do campo tinham uma vida ainda mais exigente. Logo pela manhã, ajudavam os pais na lavoura e, depois, percorriam quilómetros a pé para chegar à escola. Era uma vida dura, mas era a vida que conheciam.

E, no recreio, entre uma corrida e outra, encontravam finalmente o momento para brincar com os outros meninos.

Hoje também existem dificuldades, é certo. Mas talvez muitos dos que nasceram depois daquela época nem imaginem o que era viver sem as comodidades que hoje consideramos indispensáveis.

Foram tempos de sacrifícios, mas também de união, entreajuda e amor.

Os irmãos mais velhos tomavam conta dos mais novos. Os filhos cuidavam dos pais quando estes envelheciam. Os vizinhos ajudavam-se. E, mesmo quando a noite chegava e a casa ficava iluminada apenas pela chama tímida de um candeeiro a petróleo, havia algo que nunca faltava: a família reunida.

Ninguém abandonava ninguém.

Hoje temos mais coisas, mais conforto, mais tecnologia e tantas formas de passar o tempo… mas será que somos mais felizes?

Talvez não seja fácil responder.

Foram outros tempos. Tempos simples, difíceis e, ao mesmo tempo, cheios de memórias que ainda hoje aquecem o coração.

Foram tempos… e outros tempos hão de vir.

Tão simples como a Maria.



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